Nas
madrugadas, em uma floricultura, flores sempre conversam e cada uma delas tenta
convencer as outras da sua importância, tanto na alegria quanto na tristeza dos
seres humanos. As rosas de diversas cores, principalmente as vermelhas, iniciam
falando que são as preferidas quando compradas ou enviadas por homens
apaixonados durante o namoro ou para festejar datas importantes, enfim “tudo relacionado ao amor”. Os lírios
imediatamente retrucam falando que sozinhas ou em arranjos com outras colegas
(lisiânthus, astromélias e chuva-de-prata) decoram as igrejas nos casamentos,
para elas mais importantes que simples namoros. Escutando as conversas, os
cravos, crisântemos, copos-de-leite e margaridas comentam que, infelizmente são
mais utilizadas em cerimônias tristes. Em velórios, são as preferidas
ornamentando caixões ou fazendo parte de coroas para acompanhar funerais. Mas
em um ponto todas concordam: “que cada
uma tem o seu valor”. E assim pensando,
se abraçam em um lindo buquê.
TRÊS CAMAS, UMA DE CASAL E DUAS DE SOLTEIRO. Antes da chegada de camareiras e faxineiras, para arrumar um dos apartamentos de um Hotel Fazenda, para receber novos hóspedes, as camas e colchões conversam.
Lamentam que ficam irritadas com diferentes pessoas, pesos, movimentos e o pula-pula constante em suas partes, principalmente nos seus meios. Também o fato de sentirem frio pois os ocupantes não desligam o ar condicionado ao saírem pela manhã e, com as camas desarrumadas, o frio fica insuportável. Que vida essa que levamos, mas não podemos reclamar porque somos de madeira maciça e poderíamos não ser camas, mas bancos em praças ou jardins públicos e sofreríamos muito mais do que aqui.
DESABAFO MATINAL DE UMA JEQUITIBÁ. Estou exausta porque todas as noites não consigo “pregar o olho”. Sempre a mesma coisa. Quando o sol se põe, lá vem eles me transformar em hotel e com muita algazarra. Por ser a única nesta região e por ter uma copa generosa pra se abrigarem do frio e da chuva, chegam em bandos. São pardais, curiós, maritacas e até em certas épocas, sabiás e tico-ticos. Sujam todos os meus galhos e brigam pelos melhores lugares para se protegerem nas frias madrugadas. E eu tudo assisto, passiva, não posso mudar de lugar nem desaparecer porque, além de idosa, estou bem enraizada.
Bem antes do amanhecer, e junto com o canto dos galos, o concerto dos hospedeiros tem início com as maritacas. São bem afinadas, mas me deixam surda. A seguir, todos os outros dão o “ar de sua graça”. Dou graças a Deus quando vejo o crepúsculo matutino anunciando um novo dia. Todos se vão novamente em bandos e me deixam sozinha. Ai, mesmo chateada por mais uma noite mal dormida, penso que, de algum modo estou cumprindo a missão que o mundo me confiou. Além de sombra e melhorar o ar ambiente, dar abrigo a quem me pede e sem cobranças.



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