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Histórias Aleatórias 3


Duas árvores. Uma mangueira e uma amendoeira, existentes em uma praça de uma cidade no interior, conversam ao amanhecer. A mangueira, carregada de frutos maduros e prontos para colheita, está revoltada por que, além de hospedar passarinhos todas as noites sem nenhum custo, é muito prejudicada em sua estrutura durante o dia por meninos que sobem em seus troncos para colher seus frutos. Mas, o “castigo vem a cavalo” e os meninos comem as mangas cheias de bicadas deixadas pelos hospedeiros noturnos.

A amendoeira, após ouvir atentamente as queixas da colega, lamenta o fato e retruca. Os meus problemas são outros. Abrigo também passarinhos durante a noite, mas, sendo ainda nova, não tenho frutos. Não sofro danos em meu tronco porque ele é mais resistente que o seu. Mas, por ter copa larga, minha sombra é utilizada não somente para abrigo do Sol, mas, também para piqueniques que deixam o meu quintal imundo além de ouvir um barulho infernal principalmente no verão. Isso me incomoda e me neurotiza. Paciência colega. Temos que nos conformar e aceitar tudo por que “o nosso papel no planeta é muito mais importante do que tudo isso que passamos”.



Pregos muito amigos, de vários tamanhos e calibres, quando se encontram, conversam sempre sobre coisas que acontecem quando estão sendo usados. Os pequenos se queixam dos seus donos tentarem pregá-los em madeiras maciças, tipo mogno com grandes martelos e assim amassados e torturados. Raramente conseguimos entrar nas madeiras. Geralmente envergamos no caminho e ficamos inválidos. O pior é quando ainda querem nos reaproveitar. Neste caso acabamos mutilados. Os pregos maiores concordam e retrucam dizendo que, com eles, acontece exatamente o contrário: seus donos querem usá-los para unir várias madeiras finas, tipo compensados. Nós entramos com a maior facilidade e saímos ilesos e prontos para sermos reutilizados porque os compensados racham. Finalmente, todos lamentam, que “usados indevidamente não podem cumprir suas missões”.

 


Um fusquinha vermelho fabricado em 1970, totalmente reformado por seu dono, observa diariamente um colega seu, de luxo, passar em alta velocidade na mesma rua onde fica estacionado, ao relento, em uma casa modesta. É um Mercedes-Benz de cor branca e zero quilômetro.

 Idoso, mas lúcido, pensa com seus botões: não tenho a mínima inveja dele porque meus donos me tratam bem, sabem da minha bebida preferida para consumo, me lavam e me lustram mensalmente. Além disso, quem me usa é um casal com dois filhos muito educados, incapazes de me sujarem ou maltratarem. Enfim, trabalho para uma família feliz. O dono do Mercedes, pelo que o meu colega vizinho comenta, é um rico fazendeiro, tem centenas de cabeças de gado, possui uma mansão luxuosa, mas vive sozinho. Acho até que não tem sequer irmãos. Isso comprova o dito que “dinheiro não é tudo”. Lamento, apenas, não poder conhecer pessoalmente a Mercedes. Afinal poderia tentar namorá-la... até o nome dela é bonito, Mercedes. Uma rainha porque tem até uma estrela na testa.


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Enquanto isso na comunidade seresteira de Conservatória:

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