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A Festa

 

            Há alguns anos, em um final de tarde de verão, estava sentado na varanda do meu apartamento para receber alguma brisa quando escutei no meu celular o som característico de recebimento de mensagens.  Não constando em meus contatos, no primeiro momento não li. Mais tarde a curiosidade me fez abrir e ver o seu conteúdo. Muito estranho. Era o convite para uma festa de aniversário em uma casa em Vargem Grande, nos arredores de Jacarepaguá.  Além do dia, hora e local, a convocação estava muito bem editada em letras góticas, mas, sem o nome do (a) remetente. Conheço e já fui a alguns eventos em casas de festas situadas naquela localidade, geralmente casamentos. Estranho também é o convite não ter um contato para confirmar presença. Fui dormir pensando quem teria me enviado isso.  Não tenho amigos ou conhecidos que moram naquela área. Amanhã vou pesquisar. No dia seguinte confirmei o endereço e realmente era uma casa. Vou ou não vou? Posso decidir com calma pois tenho ainda 25 dias pra isso. O traje pedido era o esporte fino e apenas duas exigências: chegar pontualmente às 18.30 horas e sem presentes. Minha decisão final foi comparecer mas confesso muito receoso do que poderia ser ou ocorrer neste evento.

            Chegou o dia. Um sábado como outro qualquer. Acordei cedo e iniciei os preparativos. Traje escolhido, barba e banho mais demorados, almoço um pouco mais cedo do usual e aquela soneca logo após. Programei sair de casa às 16.45 h e lá fui eu de Uber para o que "desse e viesse”. A viagem foi ótima, mas ao me aproximar do local tinha um baita engarrafamento. Automóveis de vários tipos, alguns de luxo e pensei que todos estavam indo para o mesmo destino. Exatamente isso. As chaves dos carros particulares eram entregues a um manobreiro para estacioná-los internamente.

            A casa, ou melhor mansão, situada nos fundos do terreno tinha estilo colonial e estava bem conservada. Toda iluminada, se destacava a imensa porta de entrada e as janelas com vitrôs.  Na frente, um belo jardim bem cuidado e estátuas em mármore tendo em seu centro um chafariz. Fiquei em êxtase neste momento. Tão absorto fiquei que não reparei que a porta do carro foi aberta por um dos empregados da mansão. Um senhor gentil com uniforme e boné. No portão, um mordomo gentilmente pedia a identidade de todos e conferia se constavam na relação de convidados. Após esperarmos alguns momentos no jardim, tivemos acesso à entrada.

            Todos se olhavam incrédulos porque “ninguém conhecia ninguém” e, pelos cochichos, estavam naquele momento reunidos, assim como eu, apenas movidos pela curiosidade. Entramos num imenso salão com grandes lustres, finamente decorado e conduzidos a mesa forrada com uma linda toalha branca, rendada e preparada para um banquete. A música ambiente era de valsas e músicas antigas.

            Um lindo bolo gigante e confeitado com apenas uma vela e doces os mais variados,  estavam em  uma outra mesa um pouco distante da nossa. Um mordomo pediu para sentarmos e havia somente um lugar vago, na cabeceira da mesa. Pensei o que acho que todos pensaram. É o lugar do anfitrião ou anfitriã e é uma festa de aniversário. De quem será se o bolo só tem uma vela?  A expectativa aumentou e o silêncio tomou conta do ambiente quando soou uma campainha e o mordomo pediu para todos ficarem de pé.

            Pontualmente às 19 horas, uma porta no fundo do salão se abriu e finalmente apareceu a anfitriã, elegantemente vestida, maquiada, um lindo colar de pérolas envolvendo seu pescoço e grandes brincos tipo argolas de ouro. Mãos enluvadas e pose de rainha. O branco de seus cabelos, com um bonito penteado, sobressaia em seu longo vestido rosa.  Andando com o auxílio de uma bengala, mas com dois mordomos acompanhando os seus passos, dirigiu-se ao lugar vago. Os 100 convidados tiveram a mesma ideia e uma salva de palmas ecoou naquele salão.

            Sem esconder a emoção e com lágrimas nos olhos, ela pediu para todos sentarem e falou: Meu nome é Charlotte Moretti e estou completando hoje 100 anos. Coloquei no bolo somente uma vela porque não gosto de ver o tempo passar.  Tomei a decisão de convidá-los para comemorarmos e apagarmos o bolo juntos porque há muitos anos sempre comemoro sozinha e prometi a mim mesma que nesta marcante data seria diferente. Pedi para não trazerem presentes porque, especialmente hoje, a minha prioridade é companhia. Há muitos anos, moro sozinha com alguns empregados neste casarão que pertenceu aos meus avós. Meu marido faleceu 20 anos atrás. Descendente de italianos, veio ainda rapaz para São Paulo onde o conheci. Enriqueceu com o cultivo de café e algodão. Alguns anos após sua morte mudei para o Rio de Janeiro e aqui estou vivendo neste espaço.  Duas irmãs já faleceram.  De alguns sobrinhos que vivem na Europa, tenho notícias de vez em quando. Vocês foram escolhidos aleatoriamente por sorteio. Claro que fui assessorada nesta escolha porque não podia correr riscos. Dou as minhas boas-vindas a todos e estou feliz por viver este momento, graças a Deus lúcida e com saúde. Vejo que todos os 100 convidados compareceram. Confiaram em um convite sem remetente. Muito obrigada. Uma salva de palmas mais forte novamente ecoou no salão.

            Com algumas palmas da centenária, várias portas laterais do salão se abriram. Dezenas de garçons e garçonetes, todos uniformizados, entraram no ambiente com petiscos, saladas, variados cardápios e bebidas. Realmente um banquete de alto nível.  Os convidados eram servidos em seus próprios lugares escolhendo o que queriam saborear. Igualmente para as bebidas. Por várias vezes a cena se repetiu e acredito, todos ficaram satisfeitos.

            O interessante é que o banquete da anfitriã foi diferente. Por estar de dieta e à conselho médico, não quis interrompe-la. Que lição de vida quando todos viram a aniversariante comer legumes ao vapor, frango grelhado, arroz e ovos cozidos. Bebeu apenas meia taça de vinho.

            Antes das sobremesas serem servidas, Charlotte se levantou e cumprimentou cada convidado no lugar em que estavam sentados. Tudo filmado e fotografado. Foi um dos momentos marcantes da festa. Após a sobremesa fomos convidados a cantar os parabéns.  A anfitriã dirigiu-se para a mesa onde estava o bolo e pediu ao casal que estava mais próximo dela para acender a vela. Vela acesa, a música ambiente rapidamente foi trocada para a tradicional usada em aniversários. Parabéns a você... Nesta data querida... Foi um coral lindo formado por todos os presentes incluindo mordomos, garçons, garçonetes e todos os outros empregados da mansão.  Novamente a idosa senhora não conteve a emoção e todos viram suas lágrimas. Ela as enxugou com um simples guardanapo. O casal cortou a primeira fatia do bolo e a entregou com o aplauso de todos. Mais uma emoção geral quando ela ergueu a fatia e disse: esta fatia eu ofereço para aqueles que eu gostaria de estar presentes. As fatias foram distribuídas e todos se deliciaram com o bolo e depois com os doces. A anfitriã saiu da dieta mas comeu somente meia fatia de bolo sem confeitos e um brigadeiro. Pontualmente às 22 horas a festa chegou ao seu final. A idosa senhora já demonstrando cansaço, agradeceu a presença de todos. Depois, acompanhou os convidados até o jardim e acenando com um lenço branco disse: "obrigado por terem vindo. Quem sabe estaremos juntos novamente ano que vem?”. E apoiada por dois mordomos, entra triunfalmente em sua mansão.

            De taxi voltei para casa pensando naquela assombrosa noite e por qual outro motivo, além de companhia, aquela senhora organizou um evento tão grandioso. Minha experiência de vida me respondeu. Talvez se despedindo da vida ou agradecendo por todos os anos vividos ou, ainda, por ter cumprido sua missão na Terra. Acho que tentarei fazer o mesmo se chegar aos 100 anos.  Será impossível ser igual, mas será do meu jeito, do meu melhor jeito...

           


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Enquanto isso na comunidade seresteira de Conservatória:

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